01/09/2016

Detetive Casmurro #2

  A noite era fria e o céu denunciava uma possível chuva, incomum para esta época do ano. O período de chuvas de Nova Rondon ia de Janeiro a Julho, restando um clima frio e seco pelo resto do ano. As manhãs se abrem com uma leve friagem, que se dissipa até o início da tarde, iniciando uma onda de calor que varia de 30º a 36º. As noites normalmente são frescas, mas definitivamente, não é comum a presença de chuvas.
  - Você dirige - Pediu Edgar, caminhando até a porta do passageiro da viatura policial. Marconi deu meia volta e destrancou o carro e, em seguida, flexionou o pino de tranca da porta para cima. Edgar entrou - Você liga se eu fumar? 
  - Você o faria de qualquer jeito - comentou Marconi, dando partida. Edgar retirou um pequeno maço de cigarros e apanhou um deles. O carro acelerou para a avenida principal. 
 Durante os primeiros minutos da viagem, imperou-se o silêncio. Ambos, Edgar e Marconi, mantinham-se calados, internalizando seus pensamentos e estratégias numa espécie de calda poética, que apenas aumentava a atmosfera de insegurança e mistério.
  - O cigarro me ajuda a pensar - Edgar acendia seu segundo cigarro. Ele notou que era o último, e desejou ter fumado menos na delegacia. Marconi o encarou de esgueira. A fumaça tomava forma diante dos dois. 
  - Também ajuda a te matar - O sinal estava amarelo e o carro parou. Haviam outros dois carros próximos. 
  - Dava para ter ido - A fumaça do cigarro de Edgar começou a se acumular na parte interna do capô e isso tirava Marconi do sério. O silêncio retornou. 
  - Pra onde vamos, afinal?
  - Vamos para o antigo galpão da Igreja Santo Inácio.
  - Não é a hora de pedir ajuda divina, Ed! - houve um riso, seguido de um desconfortável silêncio. Edgar fitou Marconi e manteve-se impassível. Não era a hora para piadas. O sinal tornou-se verde e o carro avançou pelas ruas escuras do centro de Nova Rondon. Antes que o silêncio voltasse, Marconi ligou o rádio: Tim Maia clareava aquela noite misteriosa. 
  A viagem não fora longa. Em menos de vinte e cinco minutos os dois já estavam estacionados diante do Galpão da Igreja Santo Inácio.Era uma enorme construção ornamentada com detalhes góticos e uma escultura do santo que nomeia a igreja, desgastada por conta da chuva e coberta de musgo verde-marrom. Havia apenas uma única fonte de luz: o holofote que clareava a estátua de baixo para cima.
  - Este lugar me dá arrepios! - Marconi empurrou o velho portão enferrujado e liberou caminho. Edgar vinha logo atrás, com sua velha binga prateada em mãos. Ambos trocaram um rápido olhar e seguiram adiante. 
  - Acredito que o assassino desta mulher esteja aí dentro.. Ou pelo menos o que restou dele - Edgar parou defronte a estátua de Santo Inácio e a encarou nos olhos. Marconi estendeu o braço para tocá-la, quando foi surpreendido por um tapa de seu parceiro - Não toque nisto! 
  - É apenas uma estátua coberta de musgo! - retrucou o jovem, irritadiço. Suas bochechas tornaram-se quentes e avermelhadas. 
  - Talvez não seja musgo, Marconi. Nem tudo é como você vê... - Ele pressionou o gatilho acendedor da binga e, na segunda tentativa, uma pequena chama formou-se em suas mãos. Marconi assistiu inquieto, tentando formular em sua linha de raciocínio o que o companheiro ia fazer. Edgar aproximou a chama do musgo verde-marrom que cobria a estátua e houve uma pequena movimentação, como se o musgo fugisse do calor da chama. Houve também um pequeno grunhido, como o som de uvas sendo pisoteadas. 
  - Mas que merda é essa?! - Marconi esfregou os olhos numa tentativa de garantir que o que estava vendo era real. O outro aproximou o fogo subitamente e ambos foram surpreendidos com um pedaço do "musgo" saltando para fora da estátua. 
  - Ali! Pega! - Exclamou Edgar, tentando pisotear o estranho musgo animado. Era uma espécie de "geleia viva" que se contorcia pelo chão e emitia pequenos grunhidos pitorescos. Marconi saltou para cima daquilo e esmagou com a sola do sapato. Um último ruído foi escutado, antes de Edgar atear fogo na criatura que derreteu-se numa nuvem de enxofre. 
  - Que diabos era aquela merda?! - Marconi suave e tinha a respiração acelerada. Tudo aquilo não fazia o menor sentido e, em sua cabeça, aquela fora a coisa mais inacreditável que vira em toda vida. 
  - Tente se acalmar, guri! - pediu Edgar, fazendo sua tradicional expressão pensativa. Marconi sabia que quando o parceiro fazia aquela expressão, algo curioso e sério se aproximava. Ele deu três passos para frente e abriu a boca para falar, mas cobriu-se de um estranho silêncio no segundo seguinte. 
  - Vamos precisar de armas? - O jovem oficial ainda não tinha reorganizado sua mente. Ele não fazia ideia do que eles estavam enfrentado, aliás, nem Edgar, eram tudo especulações de sua mente experiente e farta.
  - Acredito que elas possam ser úteis para homens, não para o que vamos enfrentar. - Os olhos de Marconi saltaram o rosto. Edgar manteve-se firme - Vamos entrar neste galpão... A coisa já sabe que estamos aqui...
  - Mas que porcaria.... - Marconi acompanhou o parceiro até a entrada do galpão. Uma enorme porta de madeira adornada com símbolos católicos os aguardava. 
  - Que Santo Inácio nos ajude...
(...)

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