30/08/2016

Professor Alberto #1

   - Eu acredito que devíamos retornar para o acampamento, Dr. Alberto. Já vai escurecer e o senhor não está em sua melhor forma... - Zambé era um homem alto, negro e tinha uma grossa voz. Fora contratado pela expedição do Professor Alberto para explorar e mapear uma área no interior da floresta Amazônica. 
   - Vamos avançar mais vinte metros, depois voltamos. Acredito que encontraremos indícios de algo no caminho - Colocou Alberto, checando os mapas em sua mão. Era um sujeito esguio e envelhecido, tinha um nariz pontudo e grande. Os cabelos eram lisos e escorriam grisalhos pela testa cansada e úmida - O que acha disto, Nayara? 
  - Vinte me parece bom - comentou a jovem historiadora e ex-aluna de Alberto. Era uma jovem sorridente e espontânea, notável por seu conhecimento avançado em história antiga e arqueologia, ainda que esta não seja sua formação inicial. 
  - Então, está certo. Mais vinte metros e só! - Comentou Zambé, avançando com o jipe da universidade. 
  O grupo de exploração do Professor Alberto era formado por cinco pessoas. Ele, como antropólogo, chefiava a expedição, seguido por Nayara. Zambé era o guia nativo da região. Havia também os irmãos Paulo e Giovani, sendo o primeiro formado em geologia (também ex-aluno do Professor Alberto) e o segundo em biologia, sendo o único que não tivera a honra de ter sido aluno do professor. 
  O jipe avançou mata adentro. O clima era deveras úmido, porém de uma secura incalculável. Os tripulantes suavam muito e eram atacados por mosquitos de tempos em tempos. A vegetação era muito estreita, bloqueando a luz do sol quase que por completo. Eram três da tarde, mas a falta de luz fazia parecer madrugada. Havia toda a sorte de espécies de besouros e insetos ainda desconhecidos, e isso fazia com que os olhos de Giovani saltassem para fora. 
  - Então, Morgan mudou o nome do grupo para Grande Ordem dos Iroqueses e,a partir dali, a antropologia evolucionista começou a tomar forma... - O Professor interrompeu o diálogo para servir-se de água em seu cantil. Nayara fazia pequenas anotações em seu inseparável bloco de anotações. A atmosfera era tranquila, apesar das condições climáticas desfavoráveis. O assunto fluía de forma prazerosa e todos faziam contribuições categóricas de acordo com suas áreas.
  - O que é aquela espécie, Giovani?! - Indagou Paulo, apontando para uma formação pontiaguda que crescia do tronco de uma árvore. Tinha detalhes vermelhos com pequenas flores na ponta. 
  - Que estranho... - Giovani apoiou-se para fora do jipe - eu nunca vi um galho com este tipo de ramificação...Parece até que foi fincado ali...Professor, dê uma olhada nisto!
  O Professor Alberto aproximou-se pelas costas de Giovani e fitou a estranha incógnita. Logo em seguida, pediu para que Zambé parece por cinco minutos. Contrariado, o guia o fez. 
  - Pegue seu extrator, Giovani. É um objeto tão formidável que deve ser levado conosco... - Comentou o Professor, recebendo auxílio de Paulo para desembarcar. 
   - Objeto? - Indagou o biólogo recém formado. Professor Alberto sorriu. 
   - Pensou ser uma planta? Aquilo sem dúvida é uma flecha! - concluiu tomado por uma contagiante euforia. Os olhos de Giovani brilharam, afetados pelo interesse de investigar o objeto. Nayara e Paulo também desceram.
  - Nós devíamos voltar... Está ficando tarde! - Advertiu Zambé, com um extremo desconforto. O grupo continuava conversando próximo da flecha
  - Ajude-me, rapazes - Pediu o professor. Os três seguraram na flecha e a puxaram para trás. Com esforço, o objeto foi arrancado do tronco. Era um galho de madeira esculpido de forma disforme,adornado com flores e pintado com extrato de frutas. 
  - Tem outra ali! - Gritou Nayara, ao fitar uma nova flecha fincada numa arvore próxima. O grupo, sem pensar duas vezes, foi até lá. 
  - É sem dúvida incrível. Eu não sabia da existência de etnias nesta região. Aliás, nem parece com as flechas dos indígenas brasileiros... - O professor analisava o objeto minuciosamente.
  - Será que descobrimos uma nova etnia? - sugeriu Nayara, imaginando seu nome em vários estudos acadêmicos. Paulo e Giovani afastaram-se para apanhar duas novas flechas.
  - Suponho que sim, querida. 
  Depois de longos minutos, o grupo se reaproximou do jipe. O silêncio foi destruído quando Nayara gritou. Alguns pássaros levantaram voo em seguida. Haviam três flechas iguais àquelas encontradas nas árvores, mas estas, estavam fincadas no peito de Zambé, que jazia morto no acento do veículo. 
  - Droga! Os índios pegaram ele! - Exclamou Paulo, dando a volta no carro e tentando socorrê-lo. Giovani o seguiu. Nayara pressionava a mão contra a boca para conter os gritos de desespero. O único que parecia manter a calma era o Professor Alberto que olhava fixamente para o topo das árvores.
  - Faz alguma coisa, professor! - pediu Giovani, coberto pelo sangue de Zambé. O Professor mantinha-se imóvel - Faz alguma coisa, caramba!
  Giovani e Paulo esforçavam-se para retirar o corpo de Zambé do banco do motorista. O guia pesava quase cem quilos e tinha um físico atlético, fruto da quantidade de exercícios que fazia todos os dias pelas matas locais.
  - NÃO SE MEXAM! - Advertiu num tom baixo, quase que num sussurro. Os demais se chocaram por alguns instantes e seguiram com os olhares para a direção que o professor apontava. Cinco chimpanzés os observavam do alto de um galho. Tinham o corpo desenhado com pinturas corporais de um extrato semelhante a tinta vermelha. O fato que surpreendeu a todos era que os animais, tidos como irracionais, estavam armados com arco e flechas, e estavam mirando no grupo. 
(...)

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