Edgar Casmurro acendia seu terceiro cigarro. Os pés estavam apoiados na mesa do seu escritório na rua 2, cruzamento com a principal, centro de Nova Rondon. O pequeno ventilador girava num ritmo tedioso, espantando a fumaça que era expelida por Edgar. Sobre a mesa, uma série de fotografias borradas de um suposto assassino. Ao lado delas, uma garrafa vazia de uísque. Era escocês, o último que restou da festa de seu casamento, do terceiro. Do rádio velho, Chet Baker cantava a melancolia num almost blue.
- A cada dia que passa, fica mais difícil aguentar os dias passando... Você vai ficando velho e começa a entender os caminhos que as coisas tomam. Não tem mais paciência pra esperar uma reação, quando você sabe qual reação será. Você vai ficando velho, e vai desvendando os mistérios da vida e descobre que no final, só quer se aposentar, colar a bunda numa poltrona mofada e assistir a final do brasileirão, sem assassinos, sem casos, sem crime...
- Falando sozinho novamente, Ed? - Marconi adentrou o escritório. A porta rangeu como de costume e, como de costume, Edgar se irritou.
- Tenho de consertar esta porra... - comentou, soltando a cinza com um suave toque no corpo do cigarro. Marconi dirigiu-se para a cadeira defronte a mesa e sentou, arremessando com euforia um envelope marrom.
- Que merda é essa?! - indagou enquanto finalizava o último gole de uísque de seu copo sem gelo. Marconi tinha um sorriso de orelha à orelha.
- É o dossiê que você pediu de Pedro Colón... O cara é um insano! Ele veio pra cá em 79, mas nesta época se chamava Raul Rueda... Mudou pro bairro da Boa Fé e lá montou um negócio de agiotagem. Foi lá que ele ficou amigo do Bola Oito, e os dois começaram a trabalhar juntos...
- Pera aí, Marconi... Cê tá dizendo que o filho da puta que está naquela cela é realmente um traficante internacional?!
- Sim, Ed! Caramba! Por que cê num para de beber esta merda e presta atenção?! - com raiva, fechou o punho sobre a mesa. Edgar o encarou, sério. Aquilo durou longos segundos. Ed estava pensando.
- Tá certo... Nós entramos em outra jurisdição... Passa o caso pro Abelardo, ele que cuida disto....
- Mas e o assassinato?! - a expressão de alegria desapareceu dos rostos do jovem oficial. Edgar continuava namorando seu cigarro.
- O assassinato não foi feito por ele, mesmo que ele seja o principal suspeito. Sabemos que foi um crime passional... Se eles tivessem mesmo um caso, ele não deixaria a mulher cheirar...
- Ele a viciou porque saberia que seria uma forma de ficarem próximos..
- Ela já era viciada, a mulher tinha grana. De fato, ela comprava deste cara, mas não foi ele que a matou.
- Então, quem foi? - A incerteza pairava sobre a mente de Marconi. Todo o seu esforço, empenho e raciocínio haviam sido jogados fora. As horas vasculhando os arquivos da polícia e do registro de estrangeiros foram simplesmente desconsiderados. A noite carregava um mistério interior. Aquela sem dúvida, não seria uma noite comum. Ed sabia disto, por isto estava bebendo. Ele queria coragem.
- Foi bem pior do que você imagina. Tô com umas ideias... Pegue as coisas, vamos dar uma volta...
Edgar Casmurro deu sua última tragada e arremessou o cigarro pela janela, enquanto assistiu-o rodopiar até cair no chão. Em pé, apanhou o casaco e saiu da sala. Marconi respirou fundo e conteve-se. Apanhou as chaves sobre a mesa e desapareceu pela porta do escritório, seguindo o rastro de Edgar.
(...)
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